sábado, 16 de agosto de 2014

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Adeus, ano velho.

Depois da longa série de postagens sobre Cecília e eu, o blog ficou um pouco parado. Era preciso retomar o fôlego. 
Agora vieram as festas de fim de ano, quando o nível de barulho no mundo aumenta muito.
Diante de tudo isso, Psiulândia se recolhe, mas com promessa de muitas novidades para 2014. Quem viver verá.
Até lá! 




segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Cecília e eu - parte 10 (final)

E assim chegamos ao final do percurso. Não ao final da minha relação com Cecília, claro, pois essa vai até o fim da minha vida, imagino.
Ao longo desses anos, desde aquele distante dia em que topei com os versos que mudaram a minha vida, Cecília tem sempre estado presente.
Nesses mais de 35 anos, escrevi muito sobre a obra da minha autora preferida. Foram muitos artigos, comunicações em congressos, ensaios, palestras. Não saberia fazer a conta exata, porque às vezes uma palestra acaba virando artigo, uma comunicação num congresso vira ensaio numa coletânea... Mas acho que dá pra dizer que meus escritos sobre Cecília andam pela casa das dezenas. Imagino que nem tudo se salva, mas tenho orgulho de alguns deles, porque acho que terão de fato contribuído para a compreensão da obra de Cecília.
Um dos meus maiores orgulhos é o de ter colaborado na edição da Poesia completa de Cecília Meireles que saiu no ano do centenário de nascimento da poetisa, 2001. É uma edição muito cuidada, em dois volumes, dentro de uma caixa, feita pela Nova Fronteira e organizada pelo professor Antônio Carlos Secchin:
No primeiro volume, entre os textos que fazem a introdução à obra, está uma seleção da crítica sobre Cecília feita por mim, a partir ainda daquele material que compõe o meu livro. Embora a edição esteja agora fora de circulação, fico feliz de ter feito parte dela.
Mas além de ter escrito sobre Cecília, nesses anos em que trabalhei na universidade, pude também orientar muitos alunos que tinham interesse em estudar a obra da escritora. Foram quase 20 trabalhos sobre Cecília que passaram por mim, nos níveis de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado. Alguns desses meus ex-orientandos estão hoje trabalhando em universidades também, o que me deixa muito feliz e com a esperança de que de alguma maneira a minha paixão por Cecília continue produzindo frutos através do trabalho deles.
E agora, que já estou bem perto de me aposentar, tomei a decisão de doar toda a minha coleção ceciliana para o mesmo Centro de Documentação Alexandre Eulalio da Unicamp, para o qual eu já tinha doado o material do mestrado. Livros, cartas, rascunhos, material audio-visual, enfim, tudo o que colecionei ao longo desses anos vai ficar reunido na "Coleção Cecília Meireles" no CEDAE.
Minhas preciosidades cecilianas foram embaladas em 7 caixas grandes e, no mês passado, foram levadas para Campinas. Aqui está o momento da assinatura do contrato de doação:



Não digo que não sofri um pouco com a partida, mas ao mesmo tempo sinto que fiz o que deveria fazer. A universidade pública me deu muitas coisas, e creio que é justo que eu devolva. Doei o que tinha de mais precioso. Além disso, não acho justo que uma coleção tão abrangente como a que consegui fique guardada só comigo. Quero que mais gente possa ter acesso a tudo o que acumulei nesses anos.
E pra falar a verdade, também tinha muito medo de morrer antes de poder dar um destino aos meus guardados e de repente ver minha coleção desmanchada e dispersa nos sebos por aí. Agora eu tenho a certeza de que todas as minhas relíquias vão ficar sempre juntas! E disponíveis pra quem se interessar por elas!
Em casa, guardei poucas coisas, que mais tarde deverão ir para o CEDAE também. Uma delas, a edição da Poesia completa de que falei há pouco. Além disso, guardei algumas edições da Obra poética da Editora Aguilar, entre elas, aquela mesma de 1967, idêntica àquela da minha escola, onde li pela primeira vez a poesia de Cecília:



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Cecília e eu - parte 9

A história já se estendeu muito, mas eu prometo que está acabando... Mas antes do final , queria contar algumas histórias sobre um outro aspecto da minha relação com Cecília: as viagens.
Para quem não sabe, a escritora era uma viajante das boas.
Fez sua primeira viagem internacional em 1934, indo pra Portugal com o primeiro marido, que era o artista plástico português Fernando Correia Dias. Foram de navio, numa viagem que, entre ida, estadia e volta, levou 3 meses.
Foi nessa ocasião que aconteceu também o célebre desencontro entre Cecília e Fernando Pessoa. Foi assim: marcaram um encontro no Café A Brasileira, no Chiado, e Pessoa não apareceu. Quando Cecília voltou ao hotel, encontrou um bilhete dele dizendo que o horóscopo dizia que não era um bom dia para se encontrarem. E assim ele perdeu a única chance de conhecer Cecília pessoalmente... Costumo dizer que, de tão arrependido, está até hoje lá, sentadinho, esperando que ela volte!
Quando estive nesse café, fiz questão de tirar uma foto dando uma bronca nele. Onde já se viu faltar a um compromisso com Cecília Meireles???
Mas foi depois do início da década de 40 que Cecília viajou com mais frequência. Foram muitos países e, por decorrência, muitos novos escritos sobre essas experiências. Há 3 volumes de Crônicas de viagem já publicados, mas, além, disso, Cecília publicou também os Poemas escritos na Índia, os Doze noturnos da Holanda, os Poemas italianos... Enfim, viajar e escrever sobre as viagens se tornou uma constante na vida de Cecília.
Eu acho que também nisso sou muito parecida com ela: gosto de viajar. E, sempre que posso, incluo nos meus roteiros algum local visitado por Cecília, pra poder ver ao vivo aqueles lugares sobre os quais ela escreveu.
Acho que o primeiro desses lugares foi Ouro Preto. Desde minhas primeiras leituras cecilianas, ficou claro para mim que essa cidade era uma obsessão para ela. E acabou se tornando para mim também, tantas foram as vezes em que lá estive, sozinha ou acompanhada. Mas desde a primeira vez, levando comigo um exemplar do Romanceiro da Inconfidência, para poder ler os poemas no cenário que os inspirou.
Fui mesmo, algumas vezes, acompanhando alunos em excursão, como uma espécie de guia literária da cidade... Nessa mesma condição, também lá estive acompanhando a escritora portuguesa Maria Teresa Horta, que se tornou minha amiga. Duas fotos desses momentos:
 na primeira estamos na casa de Gonzaga e eu leio trechos do Romanceiro para Teresa Horta, seu marido Luís e Marlise, minha amiga. Na segunda, dou algumas informações históricas para um grupo de alunos:


Mas pude visitar também alguns outros lugares que Cecília amava. Na primeira vez que estive em Amsterdã, lembro-me de me sentar sozinha à beira de um canal e de ler  em voz alta o poema "Doze", do livro Doze noturnos da Holanda, mesmo correndo o risco de ser tomada como louca...
Fui também aos Açores, à Ilha de São Miguel, onde nasceu a avó de Cecília, dona Jacinta Garcia Benevides, que foi quem a criou (o pai de Cecília morreu antes que ela nascesse e sua mãe morreu quando a futura escritora tinha apenas 3 anos).
Cecília amava os Açores e se emocionou muito quando lá esteve. Há até mesmo uma avenida com seu nome, em Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel:



Estive também em Penajoia, aldeia próxima da cidade de Peso da Régua, no norte de Portugal, onde nasceu o primeiro marido de Cecília. É um lugar encantador, no meio dos vinhedos, às margens do Rio Douro,  retratado por Cecília no poema "Madrugada na aldeia": "Madrugada na aldeia nevosa / com as glicínias escorrendo orvalho".
Enfim, em minhas viagens muitas vezes acontecem esses momentos em que mais parece que eu estou numa peregrinação ceciliana pelo mundo... De um certo modo, Cecília também define meus roteiros de viagem...

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Cecília e eu - parte 8

Ainda durante o doutorado, prestei o concurso para trabalhar na Unesp, em Assis, e passei. Lá começava uma nova fase na minha vida.
Logo nos primeiros anos, comecei a orientar trabalhos de Iniciação Científica. E quem adivinha o tema das pesquisas? Bom, na verdade eram temas variados, mas sempre havia alguns alunos pesquisando Cecília sob minha orientação.
Uma das primeiras ideias que tive foi reativar o levantamento de textos sobre Cecília, como numa continuidade daquele trabalho do mestrado. Durante muitos anos, tive alunos coletando o que se escrevia sobre ela: Jane, Luciana, Jacicarla, Vinicius, Fabiano.
Ao final das etapas das pesquisas, os documentos eram também enviados para Campinas. Os resultados foram gradualmente sendo colocados numa página na internet, muito simples, feita com a boa vontade dos alunos. Pode ser vista aqui.
Mais tarde, depois de ter obtido o doutorado, comecei a orientar também trabalhos de mestrado e doutorado, principalmente sobre Cecília.
E assim, de trabalho em trabalho, chegamos a um ano muito significativo para os que amam Cecília: 2001, o ano do centenário de nascimento da escritora.
Nessa altura, eu havia perdido um pouco o contato com Maria Mathilde e sua filha Fernanda. Foram as atividades de comemoração do centenário que nos reaproximaram.
Participei de dois congressos, um em São Paulo, na USP, organizado pela Leila Gouvêa, e outro em Porto Alegre, na UFRGS, onde trabalhava a minha xará ceciliana, Ana Maria Lisboa de Mello, que eu tinha conhecido ainda nos tempos do mestrado. Aliás, cabe um pequeno flashback: Ana e eu nos conhecemos por carta, já que nossas orientadoras eram amigas e sabiam que ambas éramos cecilianas. Foram mais de dez anos de correspondência, antes de nos conhecermos pessoalmente.
Nesse congresso de São Paulo finalmente pude rever Maria Mathilde. Não sabia era que aquela seria a última vez que nos veríamos. Ela morreria em 2007, sem que tivéssemos outra oportunidade de voltar a conversar. Naquele dia, em 2001, tivemos um encontro muito feliz, como se pode ver pelas nossas caras alegres:


Foi também nessa ocasião que me tornei mais próxima de Fernanda, uma das filhas de Mathilde, até hoje uma amiga querida.
Naquele ano também pude ver pela primeira vez o primeiro livro de Cecília, Espectros, publicado em 1919 e renegado por ela. Foi só nesse ano que encontraram um exemplar e fizeram finalmente uma reedição!
E por fim, foi também em 2001 que publiquei meu livro sobre Cecília Meireles, em que reunia o levantamento da fortuna crítica que tinha feito no mestrado, acrescentando a ele o complemento que minhas orientandas Jane e Luciana tinham feito:


É um livro difícil, que interessa só a quem pesquisa a obra de Cecília, mas fico feliz por ter podido publicá-lo. Foi o fechamento de mais um ciclo. E assim terminou um ano de festas para os cecilianos!

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Cecília e eu - parte 7

Já estou na sétima postagem e ainda nem contei como foi o final do meu mestrado.
Pois bem,  depois de ter feito temporadas de pesquisa em São Paulo e Rio de Janeiro, já tinha comigo o material de que precisava para terminar a dissertação. E aí começou um longo período de crises na hora de escrever... Mas finalmente chegou o fim do prazo e a dissertação ficou pronta.
Um dos membros da banca foi o mesmo Alexandre Eulalio, de quem já falei na parte 5. Ele já estava doente, naquela altura, e infelizmente morreu poucos meses depois. Em memória dele, a Unicamp criou o Centro de Documentação Alexandre Eulalio, inclusive para receber os documentos de seu espólio que foram doados pela família.
Durante os anos finais do mestrado, eu já tinha me mudado para São Paulo e começado a dar aulas em faculdades particulares. Depois da defesa, continuava apaixonada por Cecília mas não tinha vontade de fazer doutorado, até que um dia achei que era hora de começar de novo.
Consegui ser aprovada para o doutorado na USP, em literatura portuguesa, já que essa era a discplina mais frequente entre as que eu lecionava. Mas como eu iria incluir Cecília Meireles nisso?
Acabei optando por fazer um projeto de comparar um livro de Cecília (o Romanceiro da Inconfidência) e um de Fernando Pessoa (Mensagem). Mas preciso confessar: ainda gosto mais da minha dissertação de mestrado do que de minha tese de doutorado.
Durante os anos em que morei em São Paulo, trabalhando e estudando, conheci pessoas interessadas na obra de Cecília Meireles. Falava sobre minha pesquisa do mestrado e muitas vezes recebi pessoas em casa para pesquisar o material bibliográfico que eu tinha coletado. Era cada vez mais difícil manter aquilo tudo em ordem e bem conservado.
Foi então que tive a ideia de doar o conjunto para o Centro de Documentação Alexandre Eulalio, para resolver tanto a questão do acesso aos documentos quanto a de sua conservação adequada. E lá foram meus papeis para Campinas. Algumas pessoas acharam que eu não deveria ter feito isso, pois perderia a exclusividade desse material, mas eu fiquei muito feliz em doar. De certa maneira, sentia que retribuía um pouco à Unicamp o que ela me deu. Eu não iria precisar daqueles documentos para fazer a tese de doutorado. E, se precisasse, eles lá estariam, disponíveis para mim e para quem quisesse.
Além de tudo isso, eu sentia que era também uma forma de homenagear Alexandre Eulalio, que tinha sido tão importante no meu percurso acadêmico.
Para terminar esse capítulo, vale ainda uma lembrança: hoje, dia 7 de novembro, Cecília Meireles faria 112 anos. E no dia 9, serão 49 anos sem ela.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Cecília e eu - parte 6

Aqueles meses de pesquisa no Rio passaram muito depressa, mas foram muito marcantes para mim. Rastreei Cecília pela cidade. Visitei muitas vezes a casa do Cosme Velho. Comprei livros, ganhei outros.
Mas quando falo em comprar livros, preciso falar de alguém que entrou na minha história com Cecília e a transformou completamente. Falo de um livreiro, Jaime Marcelino Gomes.
Seu Jaime, conhecido de muita gente que passou pela USP, era um português que tinha uma banca de livros usados na FFLCH. Ele era craque em encontrar edições raras. Além da banca na USP ele tinha uma livraria em casa, um paraíso para quem, como eu, vivia fuçando livros usados nos sebos.
Comprei muitos livros dele, que não tinha dúvidas em abrir seu caderninho e anotar a dívida que os clientes, como eu, iam pagando pouco a pouco, como desse. Vendia fiado sem medo.
Conhecendo minha paixão por Cecília, Seu Jaime sempre procurava edições raras dela pra mim. Numa fase em que eu morava no interior, recebia dele cartinhas muito simpáticas, anunciando que tinha conseguido esta ou aquela edição de Cecília que poderia me interessar. Fazia a lista dos livros, descrevia o estado dos volumes, colocava o preço e terminava sempre dizendo que não colocaria aqueles títulos à venda antes de ter a minha resposta. Não é uma maravilha que alguém assim tenha existido nesse mundo?
Graças a essa gentileza do saudoso Seu Jaime, minha coleção de primeiras edições de obras de Cecília cresceu muito, incluindo algumas edições autografadas pela escritora.
Cheguei até mesmo a conseguir uma primeira edição de Doze noturnos da Holanda & O Aeronauta com dedicatória de Cecília ao também poeta Tasso da Silveira:



Nesse exemplar encaminhado ao poeta, a autora fez questão de corrigir pessoalmente pequenos erros de impressão, como no caso da troca de posição dos primeiros versos do poema "Oito" dos Doze noturnos da Holanda:


Como eu sei que foi ela quem corrigiu? Se prestarmos atenção, veremos que o tom da tinta da caneta é o mesmo. Além disso, o desenho dos números 1 e 2, que se repetem na dedicatória, é idêntico.
Esse exemplar foi uma das maiores preciosidades que consegui comprar. Poder ver o cuidado de Cecília na correção de cada gralhinha da edição foi um prazer que só mesmo os loucos por livros podem entender. E os loucos por Cecília ainda mais!