Na semana que passou, causou revolta em muita gente a declaração do dono de uma marca famosa de que não queria ver pessoas gordas usando as roupas de sua grife, porque ele quer que suas lojas sejam frequentadas apenas por pessoas bonitas. Olha o que disse o cara (que por sinal é bem feio):
"Em todas as escolas existem os adolescentes que são populares e descolados, e existem os que não são. Nós vamos atrás do primeiro grupo, que possuem atitude e muitos amigos. Muitas pessoas não pertencem a nossa marca e não podem pertencer. Nós somos excludentes? Totalmente".
Na verdade, pra mim, esse tipo de postura não é novidade. Acho que desde que me tornei adulta, tenho consciência de ter um corpo que não é o padrão: gorda, alta e de pés grandes. Com esses três atributos, aprendi uma técnica que é a de passar pelas vitrines de lojas de roupas e calçados como quem passa diante de obras de arte em uma galeria: pode-se gostar ou não deles, mas com a certeza de que eles jamais serão seus.
Como não ando descalça e pelada, como imagino que senhores como esse lá daquela grife gostariam, acabei encontrando aqui e ali formas de me vestir e me calçar, a duras penas.
Imagino que já deve ter alguém aí pensando: "Mas por que ela não compra nas lojas especializadas para gordos e para mulheres de pés grandes?"
Calma, gente, não é tão fácil assim. Alguém já parou pra olhar os modelitos que estão à venda nas lojas de roupas para gordas? Em primeiro lugar, esqueça as roupas de algodão, tudo é feito de tecido sintético. Imagino que essa opção deva ser baseada na crença de que se nós, gordos, suarmos bastante dentro dessas roupas sintéticas e quentes, vamos acabar emagrecendo...
Os modelos também são de chorar. Tudo muito convencional, peças próprias de guarda-roupa de senhoras já avançadas na idade. Tá, eu sei que estou velha agora, mas nunca gostei de me vestir de modo muito convencional e não vai ser agora que vou começar a usar vestidinhos de jérsei bem comportados.
É muito difícil encontrar algo mais alegrinho, menos sisudo. É de deprimir qualquer um.
No capítulo dos sapatos, confesso que chego a sentir até algum alívio de que não façam calçados femininos acima de 39, porque eu não tenho muita vocação para saltos altos e brilhos. Mas ficar condenada a escolher, na vitrine masculina, algum calçado que me convenha, também é triste.
Enfim, minha gente, mesmo antes da declaração infeliz daquele senhor mencionado no início, eu sempre me senti excluída desse mundo das pessoas que escolhem roupas e calçados à vontade nas vitrines. O cara apenas escancarou o que quase todas as marcas já praticam desde que eu me entendo por gente.
Como sempre, continua um inferno achar roupas e sapatos pra mim. E duvido que isso vá mudar.
sábado, 11 de maio de 2013
sexta-feira, 29 de março de 2013
Foi a gota d'água.
Muita gente tem motivos para se envergonhar de coisas da juventude. Eu também tenho.
Mas tem uma história de que eu me orgulho muito no meu passado.
Foi assim.
Era já o final de 1977 e eu tinha acabado de completar 18 anos. Meu pai não permitia que seus filhos viajassem sozinhos nunca. Só viajávamos em família.
Eu, até então, nunca tinha posto meus pezinhos em São Paulo, já que sempre moramos no interior e a capital era um monstro para meu pai, que nunca quis nos levar até lá.
Acontece que eu jogava basquete no time da escola, e naquele ano, que era o meu último do colegial (o que hoje chamam de ensino médio), conseguimos nos classificar nos Jogos Colegiais para disputar o título estadual em São Paulo.
Meu pai foi logo dizendo que não me autorizava a ir, mas a técnica do time foi em casa pessoalmente fazer uma campanha para que ele autorizasse minha ida.
Parêntese: não é que eu jogasse bem, é que o time estava muito desfalcado e não haveria ninguém - fora eu e uma colega que convalescia de uma cirurgia - para ficar no banco.
Meu pai acabou autorizando a viagem e lá fui eu.
Ficamos alojadas no Parque da Água Branca, no que ainda hoje se chama Conjunto Desportivo Baby Barioni.
Nem cheguei a sair do banco e nós ficamos em penúltimo lugar na classificação, mas foi uma delícia de viagem.
Principalmente por causa do que vou contar agora.
A técnica (só me lembro de que ela tinha o apelido de Tica) nos perguntou o que gostaríamos de fazer em São Paulo nos momentos de folga dos treinos e jogos. E eu, a mais caipira das caipiras que ali estavam, não hesitei. Disse logo que queria assistir à peça "Gota d'água", de Chico Buarque e Paulo Pontes, que estava em cartaz no Teatro São Pedro,com Bibi Ferreira no papel principal.
Tica adorou a ideia. Mais uma colega também quis ir e assim, ingressos comprados nem sei mais como, lá fomos nós.
Foi um deslumbramento para meus olhos de menina criada no interior, longe de quase tudo que me interessava culturalmente. Nunca me esqueci desse dia.
Sinto o maior respeito pela adolescente que eu fui. Na sua primeira vez em São Paulo, em lugar de querer conhecer shopping, Mappin ou Playcenter, optou por ir ao teatro ver uma peça que marcou época. E me marcou para sempre.
E hoje, ao encontrar no Facebook (graças à Márcia Guimarães) esse filme aqui, me lembrei de tudo isso. Qualquer dia consigo achar, em meio aos meus caóticos papéis, o canhoto do ingresso. Quando isso acontecer, posto aqui.
Mas tem uma história de que eu me orgulho muito no meu passado.
Foi assim.
Era já o final de 1977 e eu tinha acabado de completar 18 anos. Meu pai não permitia que seus filhos viajassem sozinhos nunca. Só viajávamos em família.
Eu, até então, nunca tinha posto meus pezinhos em São Paulo, já que sempre moramos no interior e a capital era um monstro para meu pai, que nunca quis nos levar até lá.
Acontece que eu jogava basquete no time da escola, e naquele ano, que era o meu último do colegial (o que hoje chamam de ensino médio), conseguimos nos classificar nos Jogos Colegiais para disputar o título estadual em São Paulo.
Meu pai foi logo dizendo que não me autorizava a ir, mas a técnica do time foi em casa pessoalmente fazer uma campanha para que ele autorizasse minha ida.
Parêntese: não é que eu jogasse bem, é que o time estava muito desfalcado e não haveria ninguém - fora eu e uma colega que convalescia de uma cirurgia - para ficar no banco.
Meu pai acabou autorizando a viagem e lá fui eu.
Ficamos alojadas no Parque da Água Branca, no que ainda hoje se chama Conjunto Desportivo Baby Barioni.
Nem cheguei a sair do banco e nós ficamos em penúltimo lugar na classificação, mas foi uma delícia de viagem.
Principalmente por causa do que vou contar agora.
A técnica (só me lembro de que ela tinha o apelido de Tica) nos perguntou o que gostaríamos de fazer em São Paulo nos momentos de folga dos treinos e jogos. E eu, a mais caipira das caipiras que ali estavam, não hesitei. Disse logo que queria assistir à peça "Gota d'água", de Chico Buarque e Paulo Pontes, que estava em cartaz no Teatro São Pedro,com Bibi Ferreira no papel principal.
Tica adorou a ideia. Mais uma colega também quis ir e assim, ingressos comprados nem sei mais como, lá fomos nós.
Foi um deslumbramento para meus olhos de menina criada no interior, longe de quase tudo que me interessava culturalmente. Nunca me esqueci desse dia.
Sinto o maior respeito pela adolescente que eu fui. Na sua primeira vez em São Paulo, em lugar de querer conhecer shopping, Mappin ou Playcenter, optou por ir ao teatro ver uma peça que marcou época. E me marcou para sempre.
E hoje, ao encontrar no Facebook (graças à Márcia Guimarães) esse filme aqui, me lembrei de tudo isso. Qualquer dia consigo achar, em meio aos meus caóticos papéis, o canhoto do ingresso. Quando isso acontecer, posto aqui.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Jaculândia
A Silvia Oliveira (@matraqueando), do Matraqueando lançou o desafio no Twitter: quem nunca tirou uma foto daquelas de causar vergonha a posteriori? Ou, nas palavras dela: a famosa foto jacu.
Daí, neste post aqui, surgiu a proposta de blogagem coletiva sobre o tema.
Animada, fui dar uma vasculhada nos arquivos de fotos de viagens passadas. E lá estavam elas, muitas, dezenas de fotos jacu. Talvez chegassem à casa das centenas, se eu tivesse me aplicado melhor na busca.
Mas quer saber? Poder olhar o álbum e rolar de rir com as fotos ridículas é uma delícia... Então vamos lá, uma antologia dos meus melhores - piores - momentos de jacuzice.
Amanhã, 15 de fevereiro, rola uma edição especial do Foto de viagem sobre o mesmo tema, no twitter (com as tags #FotodeViagem e #FotoJacu) e no Facebook (nesta página aqui). Pretendo colocar mais fotos por lá. Apareça!
Foto Jacu 1:
Nunca, jamais, em tempo algum, apareça vestida de neoprene numa foto, como nesta, tirada em Bonito, em 2002 (desculpa qualquer coisa, Cláudio).
Foto Jacu 2:
Dããããã... é o mesmo domo do guia, gente!
Foto Jacu 3:
Conversar com estátuas indefesas, um clássico das fotos jacu. Aqui a vítima é Jorge Amado, em Ilhéus.
Foto Jacu 4:
Uma variante da foto escorando a Torre de Pisa: segurando a pirâmide invertida do Louvre com um dedinho. Quem nunca?
Foto Jacu 5:
Nenhuma legenda faria jus a tamanha ousadia, né? Em Barcelona.
Foto Jacu 6:
A pessoa vai pra Ushuaia, fim do mundo, mas não deixa a jacuzice de fora do passeio.
Foto Jacu 7 (e última, por hoje):
Porque não há limites para o exotismo no quesito "look of the day", né?
Pra quem quiser ver mais vexames, basta ficar esperto e seguir outras postagens de fotos no Facebook e no Twitter amanhã.
PS - Gente, a Silvia tá atualizando todo dia a lista dos blogs que estão participando do festival jacu! Pase lá pelo Matraqueando pra ver, porque eu não daria conta de atualizar!
Daí, neste post aqui, surgiu a proposta de blogagem coletiva sobre o tema.
Animada, fui dar uma vasculhada nos arquivos de fotos de viagens passadas. E lá estavam elas, muitas, dezenas de fotos jacu. Talvez chegassem à casa das centenas, se eu tivesse me aplicado melhor na busca.
Mas quer saber? Poder olhar o álbum e rolar de rir com as fotos ridículas é uma delícia... Então vamos lá, uma antologia dos meus melhores - piores - momentos de jacuzice.
Amanhã, 15 de fevereiro, rola uma edição especial do Foto de viagem sobre o mesmo tema, no twitter (com as tags #FotodeViagem e #FotoJacu) e no Facebook (nesta página aqui). Pretendo colocar mais fotos por lá. Apareça!
Foto Jacu 1:
Nunca, jamais, em tempo algum, apareça vestida de neoprene numa foto, como nesta, tirada em Bonito, em 2002 (desculpa qualquer coisa, Cláudio).
Foto Jacu 2:
Dããããã... é o mesmo domo do guia, gente!
Foto Jacu 3:
Conversar com estátuas indefesas, um clássico das fotos jacu. Aqui a vítima é Jorge Amado, em Ilhéus.
Foto Jacu 4:
Uma variante da foto escorando a Torre de Pisa: segurando a pirâmide invertida do Louvre com um dedinho. Quem nunca?
Foto Jacu 5:
Nenhuma legenda faria jus a tamanha ousadia, né? Em Barcelona.
Foto Jacu 6:
A pessoa vai pra Ushuaia, fim do mundo, mas não deixa a jacuzice de fora do passeio.
Foto Jacu 7 (e última, por hoje):
Porque não há limites para o exotismo no quesito "look of the day", né?
Pra quem quiser ver mais vexames, basta ficar esperto e seguir outras postagens de fotos no Facebook e no Twitter amanhã.
PS - Gente, a Silvia tá atualizando todo dia a lista dos blogs que estão participando do festival jacu! Pase lá pelo Matraqueando pra ver, porque eu não daria conta de atualizar!
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Silêncio, hospital.
Aposto que a imagem acima (ou variações mais modernas dela) já é bem conhecida por todos nós. A enfermeira pedindo silêncio no hospital, para permitir o repouso dos pacientes, é uma figura tão clássica que acredito que seja das primeiras imagens que nos vêm à memória quando pensamos em alguma situação que exija silêncio.
No presente, entretanto, parece que a associação entre silêncio e hospital anda problemática. E não falo apenas dos escapamentos barulhentos e buzinas ensandecidas dos veículos que passam ao lado desses locais.
Tive a triste experiência de acompanhar minha mãe numa internação, num bem conceituado e antigo hospital de São Paulo, e pude constatar que o repouso dos doentes é a última das preocupações, inclusive -e principalmente - do corpo de enfermagem.
O quarto que minha mãe ocupou, para nosso azar, ficava exatamente em frente ao posto da enfermagem naquele andar. A noite que passei ali foi praticamente sem dormir, porque a conversa animada dos funcionários do hospital não permitiram que o sono me levasse.
Fiquei sabendo dos problemas que alguns têm com os filhos, das brigas com os namorados, das intrigas entre alguns funcionários, das encrencas pra resolver quem estaria de plantão durante as festas do final do ano...
Até mesmo as desventuras amorosas de uma enfermeira que tinha "ficado umas 3 vezes com um cara com quem conversava no Face" foram plenamente expostas num volume perfeitamente audível por mim lá naquela desconfortável cama de acompanhante de pessoas internadas.
Minha mãe? Tinha a bênção de um comprimido para dormir e não se incomodou com a falação. Acho até que esse comprimidinho foi incluído na prescrição dela justamente para que ela não se incomodasse com a animação do posto de enfermagem...
Cheguei até mesmo a falar com uma enfermeira, expondo a situação, mas a conversa seguiu inalterada, com vozes em volume alto e risadas mais adequadas a uma mesa de bar.
Felizmente, no dia seguinte minha mãe teve alta e ficamos livres daquela situação. Mas pobre de quem ficou por lá!
Tomara que o quadrinho da enfermeira ali de cima volte a fazer efeito nos corredores dos hospitais!
domingo, 16 de setembro de 2012
Efeitos colaterais
Já faz algum tempo, publiquei um post (Há bens que vêm para o mal?) sobre o tema de como as calçadas novas da Avenida Paulista acabaram tendo um efeito colateral indesejado: skatistas, patinadores e ciclistas viram naquele piso lisinho o cenário perfeito para treinar manobras arriscadas em meio aos inúmeros pedestres que caminham sempre por ali. Uma situação perigosa que até agora não recebeu nenhuma atenção da prefeitura.
Mas tem uma outra situação que, para mim, é bastante complicada e que, segundo meu ponto de vista, também nasceu de uma ideia boa. Aliás, de duas ideias boas.
Explico melhor.
Nos últimos anos, vêm prosperando as leis que proíbem fumar em lugares fechados. Nossos pulmões de não fumantes (ou de ex-fumantes, no meu caso) agradecem. Só que nada foi feito para resolver o que fazer com os fumantes, expulsos dos restaurantes e bares. Ficaram relegados às calçadas, às ruas, que se transformaram todas em fumódromos improvisados.
Acontece que beber ou comer num espaço interno e fumar num espaço externo nem sempre é uma operação fácil. Resultado: muitos bares com ocupação maior nas calçadas do que dentro. E todo mundo bebendo e fumando, feliz da vida, nas calçadas.
Coisa semelhante aconteceu em decorrência das leis que impedem menores de idade de beber. Nenhum bar ou restaurante serve bebidas alcoólicas sem comprovação de idade. Resultado: grupos de adolescentes reúnem-se, arranjam algum jeitinho de comprar bebidas e ir beber na rua, longe da fiscalização.
Ou seja, as calçadas viraram espaço preferencial de convivência desses dois grupos privados da possibilidade de beber num ambiente externo: ou pela limitação da idade ou pela necessidade inadiável de um cigarrinho.
Mas onde estaria o problema, se a rua é pública? Aí é que entra a minha costumeira rabugice: no barulho gerado por essas reuniões ao ar livre. Todo mundo bebendo, feliz, falando alto, rindo, até de madrugada. Mas a chata aqui tem sono. A chata aqui trabalhou o dia inteiro e está cansada. A chata aqui tem de trabalhar cedinho no outro dia. E a chata aqui não consegue dormir por causa da transformação das calçadas das cidades em bares ao ar livre.
Ah, e tem mais uma: os bares ao lar livre têm até trilha sonora, graças ao costume de ligar o som do carro bem alto pra fazer música ambiente. Pronto, ninguém mais dorme enquanto a noitada das calçadas não terminar.
Pelamordedeus, não estou fazendo campanha contra bebida ou cigarro. Quem quer beber, beba. Quem quer fumar, fume. Não tenho nada com isso.
Minha campanha é apenas em favor de um mundo mais silencioso, para que velhinhas chatas e que trabalham em horário comercial, como eu, possam desfrutar de seu sono reparador durante a noite. Não é muito, né?
Mas tem uma outra situação que, para mim, é bastante complicada e que, segundo meu ponto de vista, também nasceu de uma ideia boa. Aliás, de duas ideias boas.
Explico melhor.
Nos últimos anos, vêm prosperando as leis que proíbem fumar em lugares fechados. Nossos pulmões de não fumantes (ou de ex-fumantes, no meu caso) agradecem. Só que nada foi feito para resolver o que fazer com os fumantes, expulsos dos restaurantes e bares. Ficaram relegados às calçadas, às ruas, que se transformaram todas em fumódromos improvisados.
Acontece que beber ou comer num espaço interno e fumar num espaço externo nem sempre é uma operação fácil. Resultado: muitos bares com ocupação maior nas calçadas do que dentro. E todo mundo bebendo e fumando, feliz da vida, nas calçadas.
Coisa semelhante aconteceu em decorrência das leis que impedem menores de idade de beber. Nenhum bar ou restaurante serve bebidas alcoólicas sem comprovação de idade. Resultado: grupos de adolescentes reúnem-se, arranjam algum jeitinho de comprar bebidas e ir beber na rua, longe da fiscalização.
Ou seja, as calçadas viraram espaço preferencial de convivência desses dois grupos privados da possibilidade de beber num ambiente externo: ou pela limitação da idade ou pela necessidade inadiável de um cigarrinho.
Mas onde estaria o problema, se a rua é pública? Aí é que entra a minha costumeira rabugice: no barulho gerado por essas reuniões ao ar livre. Todo mundo bebendo, feliz, falando alto, rindo, até de madrugada. Mas a chata aqui tem sono. A chata aqui trabalhou o dia inteiro e está cansada. A chata aqui tem de trabalhar cedinho no outro dia. E a chata aqui não consegue dormir por causa da transformação das calçadas das cidades em bares ao ar livre.
Ah, e tem mais uma: os bares ao lar livre têm até trilha sonora, graças ao costume de ligar o som do carro bem alto pra fazer música ambiente. Pronto, ninguém mais dorme enquanto a noitada das calçadas não terminar.
Pelamordedeus, não estou fazendo campanha contra bebida ou cigarro. Quem quer beber, beba. Quem quer fumar, fume. Não tenho nada com isso.
Minha campanha é apenas em favor de um mundo mais silencioso, para que velhinhas chatas e que trabalham em horário comercial, como eu, possam desfrutar de seu sono reparador durante a noite. Não é muito, né?

sábado, 1 de setembro de 2012
Viajando pelo século XVIII
Um grupo de 7 blogueiras decidiu essa semana fazer uma blogagem coletiva, com o tema "5 livros que marcaram nossa vida de leitoras". A Mari Campos, do blog Pelo mundo é uma dessas blogueiras. Lendo esse post dela, tive a ideia de escrever sobre uma relação entre literatura e viagem que pra mim sempre foi muito forte, mas sobre a qual ainda não falei.
Como alguns já devem saber, sou apaixonada pela poesia de Cecília Meireles. Entre os livros que ela escreveu, está o famoso Romanceiro da Inconfidência, publicado em 1953.
A ideia de escrever o livro, conta a própria Cecília, nasceu de uma viagem a Ouro Preto, no início dos anos 40, ocasião em que ela se sentiu transportada ao século XVIII. A partir daí, surgiu uma paixão que durante 10 anos a levou a pesquisar os acontecimentos da Inconfidência Mineira e escrever o livro.
Minha primeira viagem às cidades históricas de Minas Gerais, portanto, nasceu já dessa relação entre Cecília e aqueles lugares.
Sempre que lá estive carreguei comigo um exemplar do Romanceiro da Inconfidência. Tem outro gosto ler aqueles poemas nos lugares onde aqueles eventos aconteceram. Vagava pelas ladeiras, me sentava à frente das igrejas e casarões e lia, lia, lia.
Estar em Ouro Preto, Tiradentes, São João Del Rey, Mariana, Sabará e não ter comigo os poemas de Cecília estava fora de cogitação. Na mala, sempre ia o volumezinho!
Nas minhas aulas de literatura, sempre faço campanha para que meus alunos conheçam essas cidades, porque acredito que nenhum brasileiro pode deixar de ter essa experiência do Brasil.
Vai daí que, há alguns anos, um grupo de alunos decidiu ir para Ouro Preto no final do ano letivo. Eles me propuseram, então, ir com eles e fazer essas leituras de poemas nos passeios do grupo pela cidade.
Eu fui, e foi muito emocionante. Ler os poemas em silêncio, só para mim, tinha um sentido. Lê-los em voz alta, diante dos alunos e dos monumentos, tinha um impacto ampliado sobre mim.
Na casa de Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu, por exemplo, lia uns dos poemas intitulados "Cenário": No jardim que foi de Gonzaga, / a pedra é triste, a flor é débil, / há na luz uma cor amarga."
Diante das escadas da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, vendo ao fim da ladeira a casa de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília, lia o tristíssimo poema "Retrato de Marília em Antônio Dias", que a descreve já velhinha, subindo a ladeira para ir à missa naquela mesma igreja onde depois seria sepultada.
Mas o momento mais emocionante dessa viagem foi quando, diante das madeiras que dizem ter sido as da forca onde foi morto Tiradentes, li o trecho do "Romance LXIII ou do silêncio do alferes". Depois de ler a última estrofe desse trecho, que inclui a passagem da morte de Tiradentes ("Já lhe vão tirando a vida. / Já tem a vida tirada. / Agora é puro silêncio, / repartido aos quatro ventos, / já sem lembrança de nada."), sem nenhuma combinação prévia, soou um sino muito próximo, talvez da vizinha Igreja do Carmo. Foi um momento mágico, que deixou a todos nós surpresos e emocionados.
No ano seguinte, voltei às cidades históricas com alguns amigos. Dessa vez, o momento mágico aconteceu em Tiradentes. Lá, diante da casa do Padre Toledo, onde dizem ter acontecido algumas das reuniões dos conjurados, li o "Romance XXIV ou da Bandeira da Inconfidência": "Através de grossas portas, / à luz de velas acesas, / brilham fardas e casacas, / junto com batinas pretas." Enquanto fazia a leitura, começou a tocar num alto-falante próximo uma música barroca que tinha tudo a ver com aquele clima. Depois que terminei a leitura, descobrimos que a música antecedia um anúncio fúnebre, que começou logo depois de encerrado o poema. Parecia, de novo, tudo combinado com algum fantasma dos inconfidentes ou de Cecília Meireles!
Agora em julho deste ano, voltei mais uma vez com meus alunos. Foi de novo uma sucessão de momentos mágicos. Para os alunos, ficou claro que algum fantasma nos acompanhava quando, ao terminar minha preleção inicial, antes de entrarmos no Museu da Inconfidência, novamente o sino da Igreja do Carmo fez sua participação especial!
Enfim, para a minha experiência, as cidades históricas de Minas Gerais e o Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, são indissociáveis. Recomendo a quem queira experimentar. Mas cuidado: coisas mágicas costumam acontecer!
Lendo para os alunos na primeira etapa, diante da Igreja de São Francisco de Assis, em 2012. Foto de Carmem Almeida.
Como alguns já devem saber, sou apaixonada pela poesia de Cecília Meireles. Entre os livros que ela escreveu, está o famoso Romanceiro da Inconfidência, publicado em 1953.
A ideia de escrever o livro, conta a própria Cecília, nasceu de uma viagem a Ouro Preto, no início dos anos 40, ocasião em que ela se sentiu transportada ao século XVIII. A partir daí, surgiu uma paixão que durante 10 anos a levou a pesquisar os acontecimentos da Inconfidência Mineira e escrever o livro.
Minha primeira viagem às cidades históricas de Minas Gerais, portanto, nasceu já dessa relação entre Cecília e aqueles lugares.
Sempre que lá estive carreguei comigo um exemplar do Romanceiro da Inconfidência. Tem outro gosto ler aqueles poemas nos lugares onde aqueles eventos aconteceram. Vagava pelas ladeiras, me sentava à frente das igrejas e casarões e lia, lia, lia.
Estar em Ouro Preto, Tiradentes, São João Del Rey, Mariana, Sabará e não ter comigo os poemas de Cecília estava fora de cogitação. Na mala, sempre ia o volumezinho!
Nas minhas aulas de literatura, sempre faço campanha para que meus alunos conheçam essas cidades, porque acredito que nenhum brasileiro pode deixar de ter essa experiência do Brasil.
Vai daí que, há alguns anos, um grupo de alunos decidiu ir para Ouro Preto no final do ano letivo. Eles me propuseram, então, ir com eles e fazer essas leituras de poemas nos passeios do grupo pela cidade.
Eu fui, e foi muito emocionante. Ler os poemas em silêncio, só para mim, tinha um sentido. Lê-los em voz alta, diante dos alunos e dos monumentos, tinha um impacto ampliado sobre mim.
Na casa de Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu, por exemplo, lia uns dos poemas intitulados "Cenário": No jardim que foi de Gonzaga, / a pedra é triste, a flor é débil, / há na luz uma cor amarga."
Diante das escadas da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, vendo ao fim da ladeira a casa de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília, lia o tristíssimo poema "Retrato de Marília em Antônio Dias", que a descreve já velhinha, subindo a ladeira para ir à missa naquela mesma igreja onde depois seria sepultada.
Mas o momento mais emocionante dessa viagem foi quando, diante das madeiras que dizem ter sido as da forca onde foi morto Tiradentes, li o trecho do "Romance LXIII ou do silêncio do alferes". Depois de ler a última estrofe desse trecho, que inclui a passagem da morte de Tiradentes ("Já lhe vão tirando a vida. / Já tem a vida tirada. / Agora é puro silêncio, / repartido aos quatro ventos, / já sem lembrança de nada."), sem nenhuma combinação prévia, soou um sino muito próximo, talvez da vizinha Igreja do Carmo. Foi um momento mágico, que deixou a todos nós surpresos e emocionados.
No ano seguinte, voltei às cidades históricas com alguns amigos. Dessa vez, o momento mágico aconteceu em Tiradentes. Lá, diante da casa do Padre Toledo, onde dizem ter acontecido algumas das reuniões dos conjurados, li o "Romance XXIV ou da Bandeira da Inconfidência": "Através de grossas portas, / à luz de velas acesas, / brilham fardas e casacas, / junto com batinas pretas." Enquanto fazia a leitura, começou a tocar num alto-falante próximo uma música barroca que tinha tudo a ver com aquele clima. Depois que terminei a leitura, descobrimos que a música antecedia um anúncio fúnebre, que começou logo depois de encerrado o poema. Parecia, de novo, tudo combinado com algum fantasma dos inconfidentes ou de Cecília Meireles!
Agora em julho deste ano, voltei mais uma vez com meus alunos. Foi de novo uma sucessão de momentos mágicos. Para os alunos, ficou claro que algum fantasma nos acompanhava quando, ao terminar minha preleção inicial, antes de entrarmos no Museu da Inconfidência, novamente o sino da Igreja do Carmo fez sua participação especial!
Enfim, para a minha experiência, as cidades históricas de Minas Gerais e o Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, são indissociáveis. Recomendo a quem queira experimentar. Mas cuidado: coisas mágicas costumam acontecer!
Lendo para os alunos na primeira etapa, diante da Igreja de São Francisco de Assis, em 2012. Foto de Carmem Almeida.
domingo, 22 de julho de 2012
De vidas e clubes
É, eu vou falar de novo de celulares. Mas dessa vez vou falar de uma família específica de celulares: os que funcionam por rádio.
Você já deve ter visto muitos por aí. Do ponto de vista visual, é fácil reconhecer: o usuário geralmente usa o celular em posição perpendicular ao rosto, alternando entre a boca e a orelha. Nos outros tipos de celular, geralmente o aparelho fica parado, colado ao rosto. É fácil perceber a diferença.
Mas o aspecto mais evidente da diferença entre os dois tipos de celulares é o sonoro: os que funcionam por rádio geralmente são usados no viva-voz, com uma campainha que toca cada vez que vai haver alguma alternância na vez de quem fala. Em suma, uma barulheira, com gente falando de lá e de cá e as campainhas marcando cada mudança de falante.
Eu sempre acho desagradável ouvir conversas alheias quando as pessoas falam em público nos celulares. No caso desses, o constrangimento é ainda maior, porque a gente ouve os dois lados da conversa, graças ao viva-voz. Privacidade zero.
Acho que por essas e outras fica fácil a gente entender por que o slogan da marca mais conhecida desse sistema de telefonia (será que há outras?) é "Essa é minha vida, esse é meu clube". Uma tal exposição pública da conversa faz com que todos saibam como é sua vida. E o alcance de sua conversa em viva-voz se amplia até que todos à sua volta passam a fazer parte dela: seu clube.
Já deu pra sentir que eu realmente não gosto desses celulares, não é? Ou melhor, não gosto da maneira como eles são usados pelas pessoas, transformando toda conversa privada em pública. E colaborando pra aumentar ainda mais a poluição sonora do nosso já tão barulhento mundo.
Pra terminar, mais uma confissão: sempre que ouço esse slogan que citei antes, lembro-me não das inúmeras paródias que há por aí, mas sim de um maravilhoso e terrível poema de José Paulo Paes, escrito muito antes do advento dos celulares por rádio, chamado "Declaração de bens". Deixo então com ele a palavra final sobre essa história de vidas e clubes:
Você já deve ter visto muitos por aí. Do ponto de vista visual, é fácil reconhecer: o usuário geralmente usa o celular em posição perpendicular ao rosto, alternando entre a boca e a orelha. Nos outros tipos de celular, geralmente o aparelho fica parado, colado ao rosto. É fácil perceber a diferença.
Mas o aspecto mais evidente da diferença entre os dois tipos de celulares é o sonoro: os que funcionam por rádio geralmente são usados no viva-voz, com uma campainha que toca cada vez que vai haver alguma alternância na vez de quem fala. Em suma, uma barulheira, com gente falando de lá e de cá e as campainhas marcando cada mudança de falante.
Eu sempre acho desagradável ouvir conversas alheias quando as pessoas falam em público nos celulares. No caso desses, o constrangimento é ainda maior, porque a gente ouve os dois lados da conversa, graças ao viva-voz. Privacidade zero.
Acho que por essas e outras fica fácil a gente entender por que o slogan da marca mais conhecida desse sistema de telefonia (será que há outras?) é "Essa é minha vida, esse é meu clube". Uma tal exposição pública da conversa faz com que todos saibam como é sua vida. E o alcance de sua conversa em viva-voz se amplia até que todos à sua volta passam a fazer parte dela: seu clube.
Já deu pra sentir que eu realmente não gosto desses celulares, não é? Ou melhor, não gosto da maneira como eles são usados pelas pessoas, transformando toda conversa privada em pública. E colaborando pra aumentar ainda mais a poluição sonora do nosso já tão barulhento mundo.
Pra terminar, mais uma confissão: sempre que ouço esse slogan que citei antes, lembro-me não das inúmeras paródias que há por aí, mas sim de um maravilhoso e terrível poema de José Paulo Paes, escrito muito antes do advento dos celulares por rádio, chamado "Declaração de bens". Deixo então com ele a palavra final sobre essa história de vidas e clubes:
DECLARAÇÃO DE BENS (José Paulo Paes)
meu deus
minha pátria
minha família
minha casa
meu clube
meu carro
minha mulher
minha escova de dentes
meus calos
minha vida
meu câncer
meus vermes
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